Estou cansado, é claro, porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado. De que estou cansado, não sei. De nada me serviria saber, pois o cansaço fica na mesma, a ferida dói como dói, e não em função da causa que a produziu. Sim, estou cansado, e um pouco sorridente de o cansaço ser só isto: uma vontade de sono no corpo,  um desejo de não pensar na alma,  e por cima de tudo uma transparência lúcida do entendimento retrospectivo. Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto, e há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá, que afinal, a cabeça sempre serve para qualquer coisa.
 (Alvaro de Campos/Fernando Pessoa).