“Sempre fui um bom ouvido, melhor ainda boca. Escutei sempre o que me disseram, ainda que os meus ouvidos estivessem entupidos e a minha cabeça abarrotada. Aconselhado, gritei quando devia. Abracei, também, por que não!?
Na medida do possível, me doei a todos. Sem distinções. Sempre fui mais dos amigos do que de mim mesmo. Aquele tipo de gente prestativa que todo mundo ama ter. Que entende de tudo. Que sabe dizer as palavras quase certas, ainda que em diversos momentos errados. Mas a vida, sem dúvidas, é uma via de mão dupla. E eu, ah, eu nasci para andar na contramão.
Nunca consegui seguir os meus próprios conselhos. Nem mesmo os mais simples que dizem que dormir cedo ajuda a saúde ou que é melhor deixar para lá o que não deu certo. Insistir quando a vontade é grande. É que acho mais fácil apontar os nortes de quem me apresenta a vida pronta.
A minha... Respira fundo. Parece um fone de ouvidos. Sabe aqueles nós inexplicáveis e do nada? Aquelas curvas e voltas e aqueles apertos em lugares que nem caberia? Então. Prazer, minha história. Talvez, esse seja o brinde das pessoas confusas – facilitar a vida alheia.
É como se eu precisasse me perder para alguém se achar. Como se eu fosse o guia. Aquele que vai na frente, abrindo caminho na mata, para que quem vem atrás ache lugares mais confortáveis para colocar os pés.
A vantagem disto tudo é que eu chego na frente. Ainda que isso pareça pouco, pelo menos eu tenho as frases de efeito e os conselhos morando aqui dentro da minha cabeça. Quem sabe uma hora isso não comece a me mover... A mudar esse caos que ecoa nos meus dias!? Vai lá saber.
Por enquanto, empresto meus ouvidos, meu colo, meus ombros a quem precisa de apoio. Isso também me ajuda a esquecer do que não depende de mim para acontecer. Entretém a alma, enquanto a vida gira.” 
(Matheus Rocha)